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O que mudou no Teste de Endotoxinas Bacterianas na 8ª edição da Farmacopeia Brasileira?

  • 8 de jul.
  • 7 min de leitura

A ANVISA publicou a 8ª edição da Farmacopeia Brasileira,

marcando os 100 anos da principal referência nacional para o controle de qualidade de medicamentos. Entre os capítulos revisados está o 5.5.2.7.3 – Teste de Endotoxinas Bacterianas, que recebeu uma das atualizações mais abrangentes dos últimos anos.



Mais do que uma revisão editorial, o capítulo do Teste de Endotoxinas Bacterianas foi reorganizado, harmonizado com referências internacionais e passou a apresentar esclarecimentos técnicos que tornam sua aplicação ainda mais objetiva e alinhada às práticas atualmente adotadas pelos laboratórios e pela indústria farmacêutica.


Neste artigo, reunimos as principais mudanças introduzidas na nova edição e discutimos o impacto prático de cada uma delas.

Imagem da capa da 8ª edição da Farmacopeia Brasileira, lançada em julho de 2026
Capa da 8ª edição da Farmacopeia Brasileira — Reprodução/Biblioteca Digital da ANVISA
É importante destacar que esta revisão do capítulo de Teste de Endotoxinas Bacterianas não mudou as exigências farmacopeicas já previstas nas edições anteriores, porém representa muito mais do que uma simples atualização de terminologias e reorganização do conteúdo. Agora, a Farmacopeia Brasileira está harmonizada com referências internacionais e incorpora esclarecimentos técnicos que tornam os requisitos mais objetivos e consistentes.

Resumo das principais alterações


Veja abaixo um resumo das principais alterações entre a 7ª edição e a 8ª edição da Farmacopeia para o capítulo de Endotoxinas Bacterianas:


Tema

7ª edição

8ª edição

Harmonização

Texto próprio da Farmacopeia Brasileira

Texto harmonizado internacionalmente e baseado no Pharmacopeial Discussion Group (PDG)

Método gel-clot

Não havia definições sobre resultados conflitantes

Passa a ser definido como método arbitral em situações de conflito

Aparatos

“Vidrarias e descartáveis”

Novo tópico "Aparato", incluindo microplacas e outros acessórios

Reagentes

Organização mais simples

Seções reorganizadas e mais detalhadas

Controle Padrão de Endotoxina

Descrição focada no Padrão de Referência Primário (RSE)

Reconhece padrões secundários (CSE) calibrados

Água Apirogênica

Nomenclaturas diferentes ao longo do capítulo

Nomenclatura unificada com detalhamento

Máxima Diluição Válida (MDV)

Fórmulas separadas

Fórmula unificada, ampliada e mais abrangente

Limite de Endotoxina

Fórmula e definições gerais

Inclusão de tabela de valores de K e novos critérios para produtos com múltiplas indicações

Métodos fotométricos

Descrição resumida

Critérios e definições ampliados

Gel-clot

Procedimentos descritos em texto

Inclusão de tabelas, orientação sobre semi-quantificação e critérios mais claros de aceitação


Clique nos tópicos abaixo para expandir e conferir os detalhes sobre as principais alterações e reformulações dos temas abordados na tabela.


Harmonização internacional do capítulo

A mudança mais robusta observada na 8ª edição foi a harmonização internacional do capítulo. O texto passa a ser baseado no Pharmacopoeial Discussion Group (PDG), aproximando a Farmacopeia Brasileira das principais farmacopeias internacionais.


Símbolos foram incluídos para facilitar a identificação de textos incluídos: os diamantes vazios () identificam trechos exclusivos da Farmacopeia Brasileira, enquanto os diamantes preenchidos (◆) indicam textos presentes em uma ou mais farmacopeias integrantes do PDG, mas que não fazem parte do texto harmonizado.


Além de alterar a redação, este novo capítulo incorpora conceitos que já eram amplamente utilizados internacionalmente e reduz diferenças de interpretação entre documentos regulatórios. Um dos principais exemplos é a inclusão da orientação de que o método gel-clot deve ser considerado o método arbitral quando houver divergência entre resultados obtidos por diferentes metodologias.


Esse conceito já era descrito na Guia 1085 do U.S. Food and Drug and Drug Administration (FDA), mas ainda não constava na Farmacopeia Brasileira. É importante destacar que isso não significa que o laboratório possa escolher livremente qual resultado utilizar. Todos os métodos empregados devem estar devidamente validados para sua finalidade, e o método gel-clot não pode ser utilizado para substituir um resultado fora de especificação apenas para obtenção de um resultado conforme. Na prática, essa atualização fornece maior segurança durante auditorias e esclarece como proceder diante de resultados conflitantes.

Aparatos

Outra mudança importante foi a ampliação do tópico anteriormente denominado "Vidrarias e Materiais Descartáveis", que passa a ser denominado "Aparato".

Essa alteração reflete melhor a realidade dos laboratórios, uma vez que diversos acessórios utilizados atualmente na execução do ensaio, tais como as microplacas empregadas nos métodos quantitativos em equipamentos leitores de microplacas, vão além das vidrarias convencionais, como os tubos de reação e diluição.


É importante destacar que, quando a despirogenização não é feita pelo próprio laboratório, é necessário requerer de seu fornecedor um Certificado (Compliance) que demonstre que o acessório é adequado ao teste de endotoxinas.

Reagentes, soluções padrão e água apirogênica

A reorganização do capítulo também trouxe maior clareza para os reagentes utilizados no ensaio. Na 7ª edição, essas informações encontravam-se distribuídas em diferentes partes do texto. Na nova edição, elas passam a ser apresentadas em seções específicas para o lisado de amebócitos, solução do lisado, soluções padrão de endotoxinas, solução amostra e água apirogênica.


Entre essas mudanças, merece destaque a revisão da seção referente às soluções padrão de endotoxinas: anteriormente, o texto descrevia apenas um tipo de controle padrão de endotoxina, incluindo detalhes específicos de preparo, armazenamento e agitação que não necessariamente eram fixos para todos os controles fornecidos pelos diferentes fabricantes de reagente LAL. Essa redação poderia levar à interpretação equivocada de que apenas o Controle Padrão de Referência (RSE) poderia ser usado no teste, questionando a validade do uso de padrões secundários (CSE). A 8ª edição esclarece que a solução padrão estoque deve ser preparada a partir de um padrão calibrado em relação ao Padrão Internacional para Endotoxinas da Organização Mundial da Saúde (OMS), seguindo as instruções do fabricante.


Na prática, essa atualização reconhece explicitamente uma abordagem já consolidada internacionalmente: o uso de padrões secundários devidamente calibrados em relação ao padrão internacional. A Guia de Perguntas e Respostas do FDA (2012) possui uma orientação quanto ao uso de padrões secundários para o teste e afirma que não só é permitido, mas também incentivado o uso de Padrões Secundários (CSE) para que a cepa original seja preservada.


Também houve padronização da terminologia utilizada para a água empregada no ensaio. Termos como "água grau reagente LAL", "água para BET" e "água livre de pirogênio" deixam de aparecer, sendo substituídos pela expressão "água apirogênica", utilizada de forma uniforme em todo o capítulo. Embora a nomenclatura tenha sido simplificada, permanece o requisito de que essa água não apresente interferência detectável com o reagente utilizado no ensaio.


É importante destacar que a água é um dos acessórios centrais no teste de endotoxina: é com ela que o reagente e o controle padrão de endotoxina são reconstituídos; que é preparada a curva de confirmação de sensibilidade e a curva-padrão, no caso de métodos fotométricos, bem como a diluição de amostras e preparo de controles. Sendo assim, uma água com concentração de endotoxina adequada é um dos pilares para um teste confiável.

Máxima Diluição Válida (MDV)

O conceito da Máxima Diluição Válida permanece inalterado, mas sua apresentação foi significativamente aprimorada: a nova edição reorganiza a fórmula, tornando sua aplicação mais clara para diferentes tipos de produtos farmacêuticos. O termo Cf passa a contemplar explicitamente produtos cuja concentração é expressa em massa, volume, equivalentes químicos ou atividade biológica.


Além disso, a definição de λ (lambda) foi ampliada: na 7ª edição, λ era descrito somente como “λ = a sensibilidade rotulada do reagente LAL”, quando nos métodos fotométricos não há sensibilidade declarada e o λ corresponde à menor concentração utilizada na curva-padrão.


Essas alterações tornam o cálculo mais abrangente e facilitam sua aplicação em diferentes metodologias analíticas.

Limite de endotoxinas

Embora a fórmula para o cálculo do Limite de Endotoxinas permaneça a mesma, a 8ª edição traz esclarecimentos importantes sobre sua aplicação.


A principal novidade é a inclusão de uma tabela com os valores de K para diferentes vias de administração, contemplando produtos intravenosos, intratecais, radiofármacos, produtos oftálmicos e medicamentos administrados por superfície corporal. Essas informações já podiam ser observadas, por exemplo, no capítulo <85> da U. S. Pharmacopeia (USP), como nota de rodapé.


Outra atualização relevante é a definição de critérios para medicamentos com múltiplas indicações ou vias de administração. Nesses casos, o limite de endotoxinas deve ser calculado para cada situação, sendo adotado como especificação o valor mais restritivo, buscando a maior segurança ao paciente.

Método gel-clot

Além da reorganização do texto, a 8ª edição passa a apresentar tabelas que descrevem de forma mais clara a preparação das soluções utilizadas na curva de confirmação da sensibilidade, teste para interferentes (validação) e no teste de rotina.


A 8ª edição também traz mais informações importantes quanto aos resultados possíveis, como por exemplo, na curva de confirmação de sensibilidade. A nova redação explicita que o ensaio somente é considerado válido quando a menor concentração da curva, ou seja, ¼ λ, apresenta resultado negativo em todas as réplicas.


Na prática, durante a confirmação da sensibilidade, espera-se observar o seguinte comportamento:

  • 2 λ: todas as réplicas positivas;

  • λ: positivas ou negativas;

  • ½ λ: positivas ou negativas;

  • ¼ λ: todas as réplicas negativas.


Embora esse comportamento já fosse esperado pelos profissionais que executam o ensaio, sua inclusão na Farmacopeia torna os critérios de interpretação mais claros e reduz dúvidas durante a execução do teste.

Métodos fotométricos

Os métodos fotométricos também receberam uma revisão importante. Embora seus princípios permaneçam inalterados, a nova edição amplia significativamente a descrição das técnicas turbidimétricas e cromogênicas, diferenciando claramente os métodos cinéticos e endpoint.


Além disso, os critérios de construção da curva-padrão foram melhor detalhados, bem como o Teste de Interferentes em métodos fotométricos. Anteriormente, não havia especificação de quando uma nova validação seria aplicável. Já na nova farmacopeia, foi incluído um trecho orientando que mudanças nas condições que possam influenciar o teste requerem que a validação seja repetida. Na Guia 1085 do FDA, essa informação é bastante explícita e detalhada, orientando técnicos em situações onde a revalidação total ou parcial se aplica.


Meu método está validado e eu já faço o teste de endotoxinas. O que preciso mudar?


Na prática, aqueles que já têm seus produtos validados e possuem o teste em seu escopo, atendendo todas as especificações farmacopeicas, não deverão alterar nada.


É importante destacar que esta revisão do capítulo de Teste de Endotoxinas Bacterianas não mudou as exigências farmacopeicas já previstas nas edições anteriores, porém representa muito mais do que uma simples atualização de terminologias e reorganização do conteúdo. Agora, a Farmacopeia Brasileira está harmonizada com referências internacionais e incorpora esclarecimentos técnicos que tornam os requisitos mais objetivos e consistentes.


Esta nova forma de apresentar as informações torna a Farmacopeia Brasileira não só um instrumento de exigências, mas também uma ferramenta técnica para analistas e auditores. Compreender essas alterações é fundamental para garantir conformidade regulatória e maior segurança na execução dos ensaios.


Para ler na íntegra


Clique no botão abaixo para acessar o documento da 8ª edição da Farmacopeia Brasileira na sua totalidade.


Fotografia da fachada da sede da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA) em Brasília (DF)
Fachada da sede da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA) em Brasília (DF) — Reprodução/ICTQ

 
 
 

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